A Bela e a Fera de Madame de Beaumont

Se tem um conto de fadas em voga esse ano é A Bela e a Fera, do francês La Belle et la Bête que terá um filme de protagonizado por ninguém menos que Emma Watson, com estreia marcada para essa semana. Certamente a lembrança que comumente vem a nossa memória quando citamos esse conto é o filme que salvou a Disney no ano de 1991, mas hoje não vamos falar sobre nenhum dos dois e sim sobre a história clássica que deu origem aos filmes e popularizou o conto.

Em 1756 a escritora francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont registrou a história mais conhecida da Bela e a Fera. A autora era filha de um pintor de classe média e teve uma vida amorosa movimentada segundo alguns biógrafos, algo totalmente incomum para a época e que talvez possa ter influenciado a sua versão da história, além de ter sido uma famosa preceptora e ter conhecido e mantido contato com ninguém menos que Voltaire, Madame de Beaumont teve inúmeros livros publicados que exerceram influências no comportamento das moças até meados do século XIX.

A história do conto é bem curta se comparada com a versão “original”, não passa de umas 12 páginas de A4, você pode ler em uma sentada, é também uma visão um tanto quanto moralista de alguns valores, que estão bem mais visíveis que no filme da Disney, há uma passagem em que a Bela reflete consigo mesma:

“Que maldade a minha”,  disse consigo mesma, “fazer sofrer um animal tão generoso para mim! É culpa sua se é tão feio? E o que importa se carece de inteligência? Ele é bom, isso vale mais que todo o resto. Por que me recusei a me casar com ele? Eu seria muito mais feliz com ele do que minhas irmãs com seus maridos. Não é nem a beleza, nem a inteligência do marido que faz a mulher feliz, são a bondade do caráter e a virtude, e a Fera possui todas essas boas qualidades. Não sinto amor por ela, mas estima amizade e reconhecimento. Vamos, não posso faze-la infeliz! Eu me culparia a vida inteira pela minha ingratidão”.

Dizer que é uma visão moralista não quer dizer que é ruim, ou talvez seja, cabe a cada um pensar sobre isso, é apenas algo que está explicitado ao extremo. Há uma presença muito forte da religião no nome de Deus que é utilizado várias vezes durante a história.

O corpo básico da história é a mesma na maioria das versões: Bela é a filha mais nova, bonita e simpática de um senhor que é um comerciante muito ric
o, ela tem no mínimo duas irmãs geralmente (no conto há irmãos também) que se diferenciam muito dela em questão de caráter e de beleza. O pai perde a maior parte dos bens por conta de naufrágios ou roubos dos navios com as mercadorias e descobre que um navio acaba atracando, com isso ele se dirige ao porto, não sem antes perguntar o que suas filhas desejam que ele lhes traga, enquanto as irmãs pedem roupas, Bela pede apenas uma rosa. Descobrindo que não há muito o que salvar retorna para casa, mas se perde no meio do caminho e vai parar em um castelo vazio, mas com uma mesa farta de comidas e acaba por passar a noite ali. No dia seguinte quando está indo embora passa por um jardim e colhe uma rosa e nesse momento a Fera aparece dando a ele a escolha de morrer ou deixar uma filha sua no castelo e obviamente Bela se oferece para ir. Passa um tempo com a dama no castelo em que toda noite a Fera a pede em casamento e ela se recusa dizendo que não gosta dele além de como um amigo (olha a friendzone aí gente). Um certo dia ela vê seu pai muito triste e sozinho e pede para visita-lo, nisso a Fera lhe pede apenas que volte em uma semana, suas irmãs conseguem fazer com que ela ultrapasse o tempo e com isso a Fera caí em tristeza. Bela se dando conta dessa situação volta ao castelo e diz que o ama, ele vira príncipe e viveram felizes para sempre.

Quem cresceu assistindo a versão animada da Disney vai estranhar alguns elementos, por exemplo: no conto original não há um Gastão, o pai da Bela não é um inventor, a família da Bela vai para uma fazenda quando perdem quase tudo, ou seja, não há tanto contato com os aldeões, Bela não é uma leitora assídua como no filme, apesar de ler. Contudo o essencial da história permanece na maioria das representações e a história que perpassou os séculos continua viva em nossa cultura. Por que ler a Bela e a Fera de Madame de Beaumont? Porque ali está a base da história e conhecer onde tudo começou é essencial para entender como essa história durou tanto tempo sem cair no esquecimento.

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Por que ler uma HQ de amorzinho?

SOPPY – É conhecido na língua inglesa como um adjetivo para representar emoções grandiosas, ou coisas cheias de sentimentalismo e ao contrário do lado racional.

Então porque nós pessoas de um mundo tão mais voltado ao cientificismo e a racionalidade deveríamos ler essa HQ? Simplesmente ela mostra o porquê de uma relação valer a pena, em pequenas coisas, não gestos grandiosos como carros com declarações escandalosas em redes sociais ao maior estilo poeta trovador ou camoniano, mas sim no dia a dia, por exemplo: quando falta luz, quando estamos em uma crise de ódio contra o mundo, vendo um filme ou fazendo chá um para o outro, é aí que essa HQ vai fazer aflorar o sentimentalismo. O quadrinho inteiro só vai utilizar as cores: vermelha, preta e branca e muitas, muitas estampas, além de todos os personagens serem meio arredondados o que vai dar uma aparência de fofura o tempo todo para a história.

 

SOPPY é uma HQ que mostra o menor e o melhor das relações amorosas, com histórias curtas representadas as vezes em um único quadrinho a autora vai transmitir sensibilidade sem ser melosa ao extremo. Com pequenas declarações simples de amor vamos conhecer a história do casal Luke e Phillipa, desde os primeiros encontros, a vida nova em casal, as pequenas batalhas contra o quintal e as ervas daninhas, até mesmo as posições para dormir melhor e também a evolução sentimental do relacionamento. A HQ pode nos inspirar a melhorar nossos relacionamentos, não apenas como casais, mas também pode te deixar em uma tremenda sofrência, então fica a indicação com um aviso também.

Philippa Rice é autora, ilustradora, faz animações e ainda domina o crochê, vive com o seu namorado Luke e tem um site com tudo isso: philiparice.com

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TECNOLOGIA, OVELHAS E MULHERES – PHILIP K. DICK

Sempre que pensamos em ficção científica vem à cabeça Arthur C. Clark, Azimov, entre outros, mas Philip K. Dick é um autor que você precisa conhecer, arrisco dizer que é um dos autores de ficção científica com as melhores obras adaptadas para o cinema, como: Blade Runner, Minnority Report, O Vingador do Futuro e outros. 

Philip K. Dick (1928 – 1982) nasceu em Chicago, EUA, era uma criança tímida e introvertida que gostava de ler, a típica criança que tem tudo para virar um escritor, como foi com Neil Gaiman, aos 23 anos escrevia o primeiro livro Vozes da Rua e escreveu cerca de 44 romances e 121 contos. O autor tratava de futuros distantes, ou nem tão distantes assim, como no caso do livro abordado aqui, Andróides Sonham Com Ovelhas Elétricas?, que se passa em 1992, vale lembrar que ele publicou o livro em 1968 e na época o ano de 92 estava em um futuro um tanto quanto distante. Então vamos ver tecnologias passadas pensadas em um futuro distante, mas que para nós já é passado. Confuso? Sim, um pouco, mas isso não atrapalha em nada o entendimento da história, pelo contrário.

O livro é tão profundo que antes de falar qualquer coisa vale a premissa que a editora Aleph trouxe para o livro:

"Rick Deckard é um caçador de recompensas. Ao contrário da maioria da população que sobreviveu à guerra atômica, não emigrou para as colônias interplanetárias após a devastação da Terra, permanecendo numa San Francisco decadente, coberta pela poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies de animais e plantas.

Na tentativa de trazer algum alento e sentido à sua existência, Deckard busca melhorar seu padrão de vida até que finalmente consiga substituir sua ovelha de estimação elétrica por um animal verdadeiro; um sonho de consumo que vai além de sua condição financeira.
Um novo trabalho parece ser o ponto de virada para Rick: perseguir seis androides fugitivos e aposentá-los. Mas suas convicções podem mudar quando percebe que a linha que separa o real do fabricado não é mais tão nítida como ele acreditava."

É nesse mundo que vamos ser inseridos através dos olhos de Rick Deckard, um caçador de androides, casado e que aspira ter uma posição social elevada comprando um animal de verdade. Rick é um homem atormentado por muitos problemas, como todos os cidadãos dessa sociedade, uma espécie de religião é instaurada e deve ser capaz de ajudar todos os homens e mulheres a aceitarem essa nova realidade e principalmente a terem empatia. A empatia é o elemento que separa seres humanos de androides fabricados fora da Terra, por mais inteligente e avançado que o cérebro de um modelo seja ele não é capaz de ter empatia e é assim que os caçadores vão descobrir quem aposentar, o problema surge quando um novo modelo parece ameaçar essa lógica e aí vamos ter de lidar com o questionamento: O que de fato separaria humanos e androides?

O livro é um daqueles de camadas, pode ser lido como uma história de um policial atrás de androides para ganhar uma recompensa e status social, além de um animal. Pode ser lido como um livro sobre religião e o poder de crença na vida das pessoas e como a experiência humana com o outro é importante. Assim como pode ser lido tal qual os conflitos de um homem que ao alcançar um novo status no trabalho se vê em choque com seus preceitos e sobre o que é realmente humanidade. A verdade é que não há uma verdade, o livro aborda tantos temas e tantas camadas que no mínimo você vai querer reler uma vez

Algo muito recorrente no livro é a forma como as mulheres são colocadas pelo autor sempre como as mais sentimentais, mesmo as androides que deveriam em tese serem desprovidas de empatia, e como os homens fazem "de tudo" por suas mulheres e sofrem, mesmo sendo um androide, o que não anula em nada o quão o livro é bom, mas é uma ressalva que deve ser feita aqui. 

O livro é fantástico e com certeza essencial para qualquer pessoa que se interesse pela ficção científica, inclusive até para quem quer adentrar esse mundo e não sabe por onde começar assista Blade Runner, o filme inspirado nesse livro, e depois venha se encantar com as 272 páginas do livro.

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FILHOS DO FIM DO MUNDO, FÁBIO M. BARRETO

Desde o começo do ano quando saí do blog em que escrevia sobre livros sentia muita saudades de escrever sobre o que lia, até que conheci o app do Amino e a comunidade de leitores Br, mas e o nervosismo para escrever? Pois bem, essa é uma primeira tentativa e aqui abordo as minhas impressões quanto ao livro Filhos do Fim do Mundo do autor brasileiro Fábio M. Barreto, espero que se interessem a ler o livro!

O autor além de escritor é podcaster, tendo trabalhado longa data no RapaduraCast e atualmente com o seu podcast Gente Que Escreve, vive em Los Angeles e já participou das redações dos jornais: O Estado de S. Paulo e Jornal da Tarde, tendo publicado conteúdos até na CNN, ou seja, ele tem um currículo bem extenso. Filhos do Fim do Mundo é o seu primeiro romance e traz uma premissa interessantíssima:

"É meia-noite quando a humanidade é surpreendida pela notícia – todas as crianças nascidas nos últimos 12 meses morreram misteriosamente. Descobrem também que plantas e filhotes também morreram"

A história contada em terceira pessoa vai dividir a trama em vários pontos de vista sobre o evento e focar mais no Repórter, no Governador do estado e em um Blogueiro famoso, mas por que eu coloquei essas profissões em maiúsculo? Porque esses são os nomes dos personagens, isso mesmo, os personagens não tem nomes e são caracterizados por suas profissões ou relações afetivas com os principais personagens, o que torna o livro muito interessante e humanizado, afinal essa história pode se passar em qualquer estado do mundo ocidental pela forma como foi escrita facilitando a sua identificação com os personagens.

O livro começa com o Repórter indo atrás de uma possível solução para o problema, já que havia visitado bunkers comprados por pessoas ricas e escrito recentemente uma matéria sobre o medo deles de um evento que causasse o fim do mundo e não é que eles acertaram? Assim o Governo (governo aqui está em maiúsculo porque a entidade funciona como um personagem a parte no livro) vai propiciar ao Repórter que tente encontrar uma cura, ou ao menos uma criança menor de um ano viva, para que haja ao menos uma esperança. Nessa jornada vamos conhecer lugares desertos e bases militares mega escondidas, além de chegar até a ver a curvatura da terra, ver o que um blogueiro pode fazer fora da internet e como em algumas situações o medo faz com que as pessoas ajam de forma irracional.

O escritor consegue te enganar diversas vezes durante a história, quando você acha que ele vai seguir por um rumo e ele vai por outro, colocando clichês utilizados como técnicas para resolver os problemas da narrativa e brincando com esses elementos, entre outros.

Recomendo fortemente este livro, não esperava nada de surpreendente da história, muito menos uma escrita tão inteligente e criativa.

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